Apesar da seca, Ceará tem superabastecimento de leite

4 de fevereiro de 2015 - 12:59

Confira reportagem do jornal O POVO sobre o tema e entrevista com o diretor de Agronegócios da Adece Reginaldo Lobo.

http://www.opovo.com.br/app/opovo/economia/2015/02/02/noticiasjornaleconomia,3386603/em-plena-seca-ceara-tem-crise-de-superabastecimento.shtml

Em plena seca, Ceará tem crise de superabastecimento de leite
Além da produção em excesso, que derruba preços, mercado cearense sofre com concorrência externa e pede sobretaxa ao leite importado

Teresa Fernandes teresafernandes@opovo.com.br Foto: SARA MAIA

Mesmo em meio à seca, o mercado cearense de leite enfrenta uma crise de superabastecimento, que tem reduzido os ganhos dos produtores e da indústria que beneficia o alimento. O consumidor viu o preço nas gôndolas de supermercado cair em mais de 36% no último ano, saindo do patamar de R$ 3 para R$ 1,90. Os empresários do setor local já chegaram a estocar cerca de 600 mil litros de leite processado na tentativa de controlar os preços. A “reserva técnica” estratégica em períodos normais é de cerca de 30 a 40 mil litros.

Para proteger o mercado local, representantes da cadeia produtiva querem que o Estado sobretaxe os laticínios vindo de outros estados. Hoje, haverá uma reunião na Secretaria da Fazenda (Sefaz) para discutir os pleitos. Aumento da produção local, acomodação e redução do mercado e vinda de produtos de outros estados a preços competitivos são causas apontados.

Entre as propostas está o aumento da taxação sobre o leite longa vida que vem de outros estados, em especial Minas Gerais, Goiás e Rio Grande do Sul. Já existe uma taxa cobrada de R$ 0,3 para cada litro de leite vindo de fora, além de uma alíquota de 17% destinada a todo o mercado. A proposta é que esse valor seja elevado a R$ 0,45 o litro. Além disso, há o pleito de isenção de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para produtos como o queijo muçarela que sejam produzidos no Estado. Hoje o alimento é quase totalmente importado.

O diretor de Agronegócio da Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece), Reginaldo Lobo, disse que existe a possibilidade de dumping, uma prática comercial na qual empresas de outros estados vendem seus produtos abaixo do valor de mercado para quebrar os concorrentes locais e dominar o mercado. “Avançamos porque houve uma avalanche de leite no Ceará. Não achamos justo porque o mercado deles é protegido”, defendeu Reginaldo Lobo.

Agamenon Coutinho, representante das cooperativas de laticínios do Ceará na Câmara Setorial de Leite, acrescentou que já vêm sendo investigadas empresas que possuem filiais no Ceará e que podem estar sonegando impostos com a justificativa de estarem produzindo no Ceará. Já foi denunciada uma empresa com sede em Pernambuco e filial no Ceará.

Preço ao produtor

Para seguirem competitivas, as indústrias locais reduziram os preços aos produtores. Enquanto em abril do ano passado, o valor pago ao produtor alcançava R$ 1,10 o litro de leite, em novembro já havia regiões pagando menos de R$ 0,80 pelo litro, segundo dados do Centro de Estudos em Economia Aplicada (Cepea).
 
“Está sobrando leite no Brasil todo”, ressaltou Henrique Girão Prata, presidente do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados no Ceará (Sindilaticínios). Ele destacou que há mais de 50 indústrias legalizadas no Ceará Se contar as pequenas fabricantes de queijo, esse número passa de 100.
 
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Depois de beneficiado, o leite longa vida tem validade média de 120 dias. Para controlar preços e evitar superoferta, os empresários fazem reserva técnica. Mas isso não tem sido suficiente. “Temos que vender nos primeiros 30 dias para o supermercado. Se passar dos 60 dias, o supermercado não compra”, destacou Agamenon Coutinho.

O consumo de leite no Brasil cresceu 25%, passando de 142 litros/ano por habitante em 2008 para 178 litros/ano em 2014, segundo o Sebrae.

Em relação ao queijo de coalho, o Ceará é forte produtor. O preço médio é de R$ 12 a R$ 14 o quilo para os produtos não certificados. Nos supermercados, os queijos certificados custam em média R$ 20.

O programa Leite Ceará, que existe desde maio de 2014, é demanda da cadeia produtiva. O objetivo é aumentar a produção de leite a partir de melhoramento genético e segurança alimentar dos animais.

Uma das soluções para a competitividade e para remunerar melhor o produtor é aumentar o mix de produtos. Deve ser concluído até o final de março o projeto para instalação de uma fábrica de leite em pó no Ceará. Ainda serão definidos critérios como localização e investimento.